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De Arquitetos da Saúde
Fevereiro 4, 2026

MedSênior e Leve planejam venda de fatia minoritária

MedSênior e Leve Saúde conversam com fundos para vender participação minoritária; a MedSênior avalia oferta secundária e a Leve negocia captação de R$ 300 mi a R$ 500 mi para expansão de clínicas e hospitais.

As operadoras de planos de saúde MedSênior e Leve Saúde, especializadas no público com mais de 60 anos, estão conversando com fundos de investimento para venda de uma fatia minoritária. As duas empresas, que têm um crescimento acelerado, vão alocar os recursos de formas distintas.

Na MedSênior, que já tem a Temasek como acionista desde 2022, a proposta é uma oferta secundária com a família fundadora reduzindo sua participação, mas mantendo o controle. Já na Leve, as negociações envolvem uma captação entre R$ 300 milhões e R$ 500 milhões para expansão da rede própria de clínicas e hospitais, apurou o Valor.

Historicamente, as operadoras fogem do público com mais de 60 anos com o argumento de que seu custo médico é elevado e, consequentemente, há uma escassez de planos de saúde para essa faixa etária. Atualmente, há 7,7 milhões de pessoas nessa faixa etária com o benefício, o que representa 15% do mercado, mas suas despesas médicas equivalem a um terço do total, segundo a consultoria Arquitetos da Saúde com base em dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Porém, as três principais empresas especializadas no público idoso – Prevent Senior, MedSênior e Leve Saúde – vão na contramão do mercado. A taxa de sinistralidade (relação entre receita e custos médicos) dessas empresas está bem abaixo da média do 2/4 setor, que fechou o ano passado em 83,8%.

A Temasek não alocou recurso na empresa, ela abriu portas e contatos
Maely Coelho

Em 2024, a sinistralidade na MedSênior ficou em 56,7% – o menor percentual do setor. Na Leve Saúde, foi de 56,78%. Já na Prevent Senior, o indicador atingiu 83,1% no ano passado e em março caiu para 74,7%. Esse é um patamar mais próximo do seu histórico.

Com a pandemia, a operadora líder no público idoso viu sua sinistralidade saltar num contexto de acusações de uso do kit-covid, negligência sanitária, entre outros. Alguns processos foram arquivados por falta de provas, um do Ministério Público de São Paulo segue em andamento e não houve nenhuma condenação até o momento. “A Prevent Senior sempre negou qualquer prática irregular”, disse a operadora.

Nos últimos dois anos, com a série de cancelamentos unilaterais de outras operadoras, muitos clientes migraram para a Prevent, afetando o equilíbrio entre demanda e oferta de serviços.

Na MedSênior, entre 2018 e 2024, a receita saltou de R$ 193,8 milhões para R$ 2,1 bilhões. O lucro líquido atingiu R$ 297 milhões no ano passado, mais do que o dobro da Prevent, que tem receita na casa dos R$ 7 bilhões. Na Leve, desde sua fundação, em 2020, a receita saiu de R$ 2,3 milhões para R$ 383 milhões, em 2024. Na última linha do balanço, a Leve ainda apresenta prejuízo devido ao seu tamanho (81 mil clientes) e ao pouco tempo de atividades.

Os fundadores da MedSênior e Leve Saúde, Maely Coelho e Ulisses Silva, respectivamente, argumentam que é possível ter um negócio rentável com o público idoso e que entraram nesse mercado porque ainda é pouco explorado no Brasil, um país que está envelhecendo e demandará cada vez mais serviços de saúde.

3/4 Em 2023, 15,6% da população brasileira tinha 65 anos ou mais e a expectativa é que em 2070 esse percentual atinja 37,8%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As três operadoras têm, juntas, 850 mil usuários (que inclui também pequena parcela de pessoas mais jovens que são dependentes), ou seja, elas ainda têm um “market share” reduzido considerando que há 7,7 milhões de pessoas com mais de 60 anos com convênio.

Desse volume, quase metade desses usuários tem plano de saúde corporativo e muitos deles possuem o benefício porque se aposentaram em empresas que permitiram o exfuncionário continuar com o convênio.

No entanto, cada vez mais empregadores estão cortando esse benefício mesmo que o ex-colaborador pague o custo do seu bolso, o que sugere uma oportunidade de participação de mercado para essas operadoras que oferecem plano de saúde na modalidade individual – esse é um outro produto escasso mesmo para os mais jovens. A combinação plano de saúde individual para idosos é a mais difícil de ser encontrada no mercado.

Prevent Senior, MedSênior e Leve Saúde trabalham com um modelo baseado em atendimento médico focado em prevenção, tendo em vista que o gasto dispensado com exames de rotina e tratamento de doenças crônicas é inferior ao custo de uma internação ou cirurgias. Além disso, os procedimentos médicos são realizados em uma rede própria com clínicas e hospitais adaptada às demandas de idosos, cujo custo é inferior quando comparado a uma rede credenciada.

Esse formato de operação foi desenvolvido pela Prevent Senior, líder desse mercado com quase 600 mil clientes, três vezes mais do que a segunda colocada, a MedSênior. A Prevent é dona de uma rede com 13 hospitais, quatro pronto atendimento e 29 clínicas, praticamente todos em São Paulo. A operadora vai abrir neste ano mais dois hospitais, dois pronto atendimentos e uma clínica.

“Ter uma operação totalmente focada nesse público faz diferença. Essas operadoras têm expertise nesse mercado, toda a sua estrutura e dados são voltados para esse segmento. Os números do setor mostram que o público com mais de 60 anos representa 15% da carteira total, mas suas despesas médicas equivalem a 34%, mas nessas operadoras especializadas o desempenho tem se mostrado melhor”, disse Luiz Feitoza, sócio da consultoria Arquitetos da Saúde.

As operadoras em geral têm dificuldades em ter uma divisão destinada só para idosos. Não à toa, segundo fontes, pouco antes da pandemia, a Prevent Senior recebeu propostas de aquisição e fusão de grandes operadoras.

Na mesma época, os investidores também estavam olhando a MedSênior, que acabou vendendo em 2022 uma fatia de 15% para o fundo soberano de Cingapura Temasek. Os recursos levantados, cujos valores não foram revelados, foram para os acionistas. Agora, 4/4 nessa nova oferta a proposta também envolve uma oferta secundária, sem redução da fatia da Temasek, segundo fontes.

O fundo soberano de Cingapura não alocou recursos na operação e, sim, abriu as portas para a MedSênior expandir sua presença em outras praças.

“Não precisamos de aporte, geramos caixa. Mas uma operadora pequena vinda do Espírito Santo tem dificuldades de entrar, por exemplo, em São Paulo. Agora, quando falamos que nosso sócio é a Temasek tudo muda, o olhar para nós é outro. Além disso, dá credibilidade porque a Temasek fez uma longa diligência aqui, ou seja, mostra que está tudo certo na nossa operação”, disse Coelho. “É um sócio dos sonhos, não incomodam, sabem que entendemos do negócio de saúde. Estão no conselho e nos ajudaram muito para abrir portas”, complementou.

A MedSênior já está presente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal, Paraná, Rio Grande do Sul e, recentemente, entrou no Recife (PE).

Fundada em 2020, em plena pandemia da covid, a Leve também cresce a passos largos. Segundo fontes, os recursos da captação entre R$ 300 milhões e R$ 500 milhões, serão destinados para aquisição de hospitais no Rio de Janeiro, praça de atuação, e expansão para outras regiões do país. Hoje, a empresa tem 11 clínicas próprias, onde os usuários fazem seus primeiros atendimentos.

A Leve tem também clientes de planos de saúde PME (pequenas e médias empresas), modalidade que a MedSênior entrou recentemente. Uma das estratégias da Leve é capturar clientes de operadoras do Rio de Janeiro como Assim Saúde, que segundo fontes tem em andamento um processo de venda, e Golden Cross, que será fechada pela ANS em meados de maio e precisa transferir seus clientes para outras empresas.

Procurados pelas reportagem para falar sobre as captações, MedSênior e Leve Saúde informaram que preferem não comentar. A Prevent Senior também não comentou sobre propostas de fusão e aquisição que chegaram a sua mesa há alguns anos.